domingo, agosto 29, 2010

Deixando a solidão e afins de lado...

Conto de Luis Vilela “Cadela”
...
Era um dia quente, abafado, o sol encoberto, o céu nublado. Do chão parecia às vezes subir ondas de calor. Na fronte do homem o suor ia lentamente escorrendo. Ele tinha o rosto contraído, os olhos apertados. Continuava a segurar o arame.
- Adão – a mulher se aproximou mais, ficando quase ao lado dele? – Por que você não procura me compreender?
- Compreender? – Ele então se virou e olhou-a. – Você vai, faz isso, e depois vem me falar em compreender?
A mulher não respondeu.
Ele tornara a olhar para longe, as duas mãos agora segurando o arame.
- Você destruiu tudo – ele disse -, tudo o que havia de bom, tudo o que havia de verdadeiro entre nós. Você destruiu tudo isso.
A mulher o olhava em silêncio.
- Eu confiava em você – ele continuou -; eu te respeitava; eu te amava. Você era para mim como uma princesa.
- Eu estou te pedindo perdão ... – disse a mulher, com voz suave.
- Perdão... É fácil pedir perdão, não é? ...
- Todos nós erramos...
Ele continuou olhando para longe, o rosto ainda mais contraído, o suor escorrendo, o tórax se dilatando com a respiração opressa.
No rosto da mulher também gotas de suor iam deslizando. Os ramos do capim roçavam-lhe as pernas . Ela sentia uma vaga tontura.
- Adão...
- Chega! – ele gritou. – Não quero mais ouvir!
Seu rosto explodia de cólera.
- Cadela!
A mulher foi se afastando, ele veio vindo.
- É isso o que você é: Uma cadela!
Ela se encostou a uma árvore de grosso tronco. Ele agarrou sua blusa e rançou um botão. Rancou os outros. Rancou o soutien. Ela só o olhava, inerme e apavorada. Ele então pegou os seus seios, grandes e de tetas largas. Ela sentiu os dedos dele, fortes e ágeis. Fechou os olhos.
- Adão...
- Geme, cadela, geme!
Ela não pode mais e abraçou-se a ele com sofreguidão.
- Me larga! – ele empurrou-a.
Ela ficou olhando-o, ofegante, os lábios trêmulos.
- Tira a roupa! – ele ordenou.
Ela tirou, enquanto ele também tirava a sua. E, sem que ele nada dissesse, ela se jogou no capim – a cabeça tombada para trás, as pernas abertas, o sexo erguido para o céu, latejante e úmido.
- Eu quero... – ela murmurou para o ar, a voz rouca, os olhos nublados.
Ele pôs o pé sobre a sua barriga: ela o agarrou, agarrou sua perna, quis agarrar seu sexo – ele deu nela um empurrão. Ela tornou a se erguer e a querer agarrar seu sexo – ele deu nela um tapa. Ela ficou petrificada, olhando-o.
- Vira de costas! – ele ordenou.
- De costas? ... – a voz trêmula. – O que você vai fazer? ...
- Vai virar? – e ele ergueu a mão para bater.
Ela protegeu o rosto.
- Vai? – a mão ameaçava.
Ela então foi se virando, lágrimas aparecendo nos olhos.
- Você não pode... Eu nunca fiz...
- Cala a boca, sua puta!
Ela sentiu-o então sobre si – o corpo dele esmagando-a contra o capim, os braços e as pernas envolvendo-a, ele agredindo-a, machucando-a.
- Você não pode... Está machucando...
Ele ofegava em sua nuca, as mãos esfregavam seus seios e seu sexo. E de repente ela parou de chorar: sentiu que tinha entrado e que agora ia entrando, rápido e firme e de uma vez. E então estava tudo dentro dela, e mexia, e ia e vinha, doído e enervante, e doce, e profundo, subindo até sua cabeça, entontecendo-a, crescendo nela toda, fazendo-a torcer-se e rir e gemer e suspirar, e pedir e gritar, desatinada, alucinada, gritando gritando gritando – e então levada para longe, nascendo e morrendo em sucessivas ondas de luz e de escuro, até não poder mais: e amoleceu desfalecida.
“Levanta”- ela escutou, mas não abriu os olhos, perdido numa suave inconsciência.
“Levanta” – Ela escutou de novo, e então abriu os olhos viu à sua frente o capim.
- Sua roupa – e ele jogou-a.
Ela se vestiu, de costas para ele. Vestia-se devagar. Amarrou as pontas da blusa. Calçou os sapatos, que estavam ali perto.
- Agora vá – disse ele.
Ela voltou-se: fitou-o com um olhar calmo e distante, como se não o tivesse entendido.
- Eu disse: agora vá.
- Embora?
- É, embora.
A mulher começou a andar, a descer a encosta. Ia lentamente. Então parou; virou-se e veio andando de volta.
Parou em frente ao homem? Abaixou-se, ajoelhou e beijou-lhe os pés.

Posted By Linso. Espero que tenham gostado ;D

sexta-feira, agosto 27, 2010

Martha Medeiros




Pinto a realidade com alguns sonhos, e transformo alguns sonhos em cenas reais.
Choro lágrimas de rir e quando choro pra valer não derramo uma lágrima.
Amo mais do que posso e, por medo, sempre menos do que sou capaz.

Martha Medeiros




Não morro de amores por pessoas sem mistério, quando se é muito transparente, muito risonho e educado é raro ser levado a sério. Prefiro os mais silenciosos, os que abrem a boca de menos, os mais serenos e mais perigosos. Aqueles que ninguém define e que sempre analisam os fatos por um novo enfoque. Prefiro os que têm estoque aos que deixam tudo à mostra na vitrine.

Clarice Lispector

"Com todo o perdão da palavra, eu sou um mistério pra mim."



Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não imaginei, eu existo.

quarta-feira, agosto 25, 2010

Caio Fernando Abreu


''Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até.''