Conto de Luis Vilela “Cadela”
...
Era um dia quente, abafado, o sol encoberto, o céu nublado. Do chão parecia às vezes subir ondas de calor. Na fronte do homem o suor ia lentamente escorrendo. Ele tinha o rosto contraído, os olhos apertados. Continuava a segurar o arame.
- Adão – a mulher se aproximou mais, ficando quase ao lado dele? – Por que você não procura me compreender?
- Compreender? – Ele então se virou e olhou-a. – Você vai, faz isso, e depois vem me falar em compreender?
A mulher não respondeu.
Ele tornara a olhar para longe, as duas mãos agora segurando o arame.
- Você destruiu tudo – ele disse -, tudo o que havia de bom, tudo o que havia de verdadeiro entre nós. Você destruiu tudo isso.
A mulher o olhava em silêncio.
- Eu confiava em você – ele continuou -; eu te respeitava; eu te amava. Você era para mim como uma princesa.
- Eu estou te pedindo perdão ... – disse a mulher, com voz suave.
- Perdão... É fácil pedir perdão, não é? ...
- Todos nós erramos...
Ele continuou olhando para longe, o rosto ainda mais contraído, o suor escorrendo, o tórax se dilatando com a respiração opressa.
No rosto da mulher também gotas de suor iam deslizando. Os ramos do capim roçavam-lhe as pernas . Ela sentia uma vaga tontura.
- Adão...
- Chega! – ele gritou. – Não quero mais ouvir!
Seu rosto explodia de cólera.
- Cadela!
A mulher foi se afastando, ele veio vindo.
- É isso o que você é: Uma cadela!
Ela se encostou a uma árvore de grosso tronco. Ele agarrou sua blusa e rançou um botão. Rancou os outros. Rancou o soutien. Ela só o olhava, inerme e apavorada. Ele então pegou os seus seios, grandes e de tetas largas. Ela sentiu os dedos dele, fortes e ágeis. Fechou os olhos.
- Adão...
- Geme, cadela, geme!
Ela não pode mais e abraçou-se a ele com sofreguidão.
- Me larga! – ele empurrou-a.
Ela ficou olhando-o, ofegante, os lábios trêmulos.
- Tira a roupa! – ele ordenou.
Ela tirou, enquanto ele também tirava a sua. E, sem que ele nada dissesse, ela se jogou no capim – a cabeça tombada para trás, as pernas abertas, o sexo erguido para o céu, latejante e úmido.
- Eu quero... – ela murmurou para o ar, a voz rouca, os olhos nublados.
Ele pôs o pé sobre a sua barriga: ela o agarrou, agarrou sua perna, quis agarrar seu sexo – ele deu nela um empurrão. Ela tornou a se erguer e a querer agarrar seu sexo – ele deu nela um tapa. Ela ficou petrificada, olhando-o.
- Vira de costas! – ele ordenou.
- De costas? ... – a voz trêmula. – O que você vai fazer? ...
- Vai virar? – e ele ergueu a mão para bater.
Ela protegeu o rosto.
- Vai? – a mão ameaçava.
Ela então foi se virando, lágrimas aparecendo nos olhos.
- Você não pode... Eu nunca fiz...
- Cala a boca, sua puta!
Ela sentiu-o então sobre si – o corpo dele esmagando-a contra o capim, os braços e as pernas envolvendo-a, ele agredindo-a, machucando-a.
- Você não pode... Está machucando...
Ele ofegava em sua nuca, as mãos esfregavam seus seios e seu sexo. E de repente ela parou de chorar: sentiu que tinha entrado e que agora ia entrando, rápido e firme e de uma vez. E então estava tudo dentro dela, e mexia, e ia e vinha, doído e enervante, e doce, e profundo, subindo até sua cabeça, entontecendo-a, crescendo nela toda, fazendo-a torcer-se e rir e gemer e suspirar, e pedir e gritar, desatinada, alucinada, gritando gritando gritando – e então levada para longe, nascendo e morrendo em sucessivas ondas de luz e de escuro, até não poder mais: e amoleceu desfalecida.
“Levanta”- ela escutou, mas não abriu os olhos, perdido numa suave inconsciência.
“Levanta” – Ela escutou de novo, e então abriu os olhos viu à sua frente o capim.
- Sua roupa – e ele jogou-a.
Ela se vestiu, de costas para ele. Vestia-se devagar. Amarrou as pontas da blusa. Calçou os sapatos, que estavam ali perto.
- Agora vá – disse ele.
Ela voltou-se: fitou-o com um olhar calmo e distante, como se não o tivesse entendido.
- Eu disse: agora vá.
- Embora?
- É, embora.
A mulher começou a andar, a descer a encosta. Ia lentamente. Então parou; virou-se e veio andando de volta.
Parou em frente ao homem? Abaixou-se, ajoelhou e beijou-lhe os pés.
Posted By Linso. Espero que tenham gostado ;D
domingo, agosto 29, 2010
sexta-feira, agosto 27, 2010
Martha Medeiros
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'Mairana
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15:53
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Não morro de amores por pessoas sem mistério, quando se é muito transparente, muito risonho e educado é raro ser levado a sério. Prefiro os mais silenciosos, os que abrem a boca de menos, os mais serenos e mais perigosos. Aqueles que ninguém define e que sempre analisam os fatos por um novo enfoque. Prefiro os que têm estoque aos que deixam tudo à mostra na vitrine.
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'Mairana
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Clarice Lispector
Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência. Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não imaginei, eu existo.
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'Mairana
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14:57
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quarta-feira, agosto 25, 2010
Caio Fernando Abreu
''Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até.''
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'Mairana
às
13:23
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