terça-feira, fevereiro 01, 2011

55 anos

Depois de tanto tempo sem postar nada. Estou de volta o/
Conto de minha autoria...

55 anos

Ela tinha 55 anos, apesar da muita idade, aquilo de algum modo me atraiu; o seu jeito de andar, seu jeito de falar, seu belo sorriso. Nossos encontros aconteciam três vezes por semana, naquele velho barzinho próximo a sua casa, o único que me deixavam beber, quem nos visse pensaria que éramos mãe e filho, mas eu sabia que a última coisa que ela poderia ser, seria minha mãe.
Meu amigos me diziam que eu havia ganhado na loteria, por ter pego uma “coroa daquelas”, como eles diziam. Eu queria que as coisas fossem tão simples assim, ela era experiente. Passei muitas noites pensando no que ela havia visto em mim, era comum ela me perguntar por que eu estava enrubescido. Nessas horas me vinha uma espécie de raiva, parecia tão tolo, tão crianção próximo dela. Mas o que eu poderia, fazer? Só tinha 16 anos. Meus amigos admiravam estupefatos as roupas que ela me presenteava, os cordões, bonés, os lugares que ela me proporcionava.
Será que eu estava apenas visando o seu dinheiro, a oportunidade de sexo e tudo mais, como meus amigos me diziam? Ou havia algum sentimento nisso tudo? O receio era grande de parecer mais tolo do que eu já era, imaginava-me declarando para ela e ela me rindo histérica e me dizendo: “Garoto tolo, você só é um brinquedo para mim.”
Eu deveria ter procurado alguém da minha idade, seria tão mais simples e mais fácil, teria-me auto poupado de todo esse sofrimento que agora eu passo. Apaixonei-me por aquela mulher, o seu carinho, as suas histórias, suas risadas e até seus “OH MY GOD”.
Ela simplesmente desapareceu da minha vida, em um dia qualquer, sem dar explicações, nem nada. Acabei descobrindo que a casa na qual passávamos os melhores momentos, era apenas alugada e o dono dela, simplesmente não sabia nada sobre o paradeiro dela. Começou então minha obsessão, passava por lá todos os dias, tentando encontrar algum sinal de vida, alguma pista de onde ela teria ido. Eu já não ligava mais para escola, passava horas em frente da nossa antiga casa, cheguei até a pagar, para entrar lá só mais uma vez e relembrar os bons momentos que passamos juntos. A cada dia que se passava vinha a certeza que eu havia sido apenas um brinquedo para ela, nem mais, nem menos. Desse amor todo, só restou os presentes que ela me dera, algumas fotos escondidas debaixo do colchão e noites de lágrimas.

Epílogo

Cinco meses depois, acabo passando por ironia do destino, naquele venho barzinho no qual bebíamos e nos animávamos. Ao entrar olho para a mesa na qual sempre sentávamos. Meus olhos se embaçaram, não parecia ser real, lá estava ela sentada, mais linda do que nunca, corro em sua direção, mas ao me aproximar vejo que ela estava com alguém e esse alguém não era eu.


terça-feira, janeiro 04, 2011

Na terra do coração

Na terra do coração passei o dia pensando - coração meu, meu coração. Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa. Ficou só com-cor, ação - repetido, invertido - ação, cor - sem sentido - couro, ação e não. Quis vê-lo, escapava. Batia e rebatia, escondido no peito. Então fechei os olhos, viajei. E como quem gira um caleidoscópio, vi:

Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe.

Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.

Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.

Meu coração não tem forma, apenas som. Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano.

Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.

Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.

Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar. A brisa sopra, saiu a primeira estrela. Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se p6os. A lua cheia brotou do mar. Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais.

Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.

Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores. Quem dele provar, será feliz para sempre.

Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.

Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.

Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos.

Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado. Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos, ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro.

Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo.

Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos - ai de mim! ai, ai de mim!

Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja. Levam junto quem me ama, me levam junto também.Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração é teu.
Caio ♥

domingo, janeiro 02, 2011

Sem romance


Ela estava apaixonada. Não só por uma figura imaginária, como sempre foi. Agora era real. Ele existia. Mas ela nunca foi romântica, carinhosa. Ela nunca havia amado alguém. Estava acostumada a ser fria e grossa com quem ousasse se aproximar. Mas o que lhe havia acontecido? O que esse garoto tinha de especial? Na verdade, nada. Ele era apenas mais um. Mas que importância tinha isso? Nenhuma. Ela o amava e ponto final.

Sem mais saber o que fazer, ela vestiu-se de coragem e foi se declarar. Em sua mente, ela chegaria a casa dele e lhe roubaria um belo beijo, sem mais palavras ela iria embora. Depois imaginou algo melhor, acrescentou detalhes, ela era boa nisso.

Momentos depois, a imagem em sua mente já havia se tornado algo surreal, uma cena vista apenas em filmes românticos. Ela sabia que não aconteceria dessa forma. Mesmo assim, ela foi. Tinha que se declarar. Tinha que provar seu amor, pelo menos uma vez. E não esperava nenhum resultado, nenhum pedido de namoro, nem carinho. Ela só queria provar a si mesma que era capaz de lutar pelo amor. Ao chegar, ele não estava. Para ela, isso era um sinal. Foi embora, como sempre fazia. Jogou seu amor no lixo e esqueceu. Ela era assim, jogava os sentimentos que não mereciam créditos. Os jogava para que toda vez que teimassem em aparecer, fossem como uma primeira vez, uma primeira paixão. Mas ela não persistia na luta, talvez porque soubesse que não valia a pena, talvez por medo ou porque gostasse de ser assim.


Texto: Mairana M.

terça-feira, novembro 09, 2010

Divã

Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o que?
Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranqüila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de uma dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento. Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responde às minhas próprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.
Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pé pra casa, avariada.
Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, Lopes, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem seqüelas, sem registro de ocorrência?
Eu nunca amei aquele cara, Lopes. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travessos. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor.

terça-feira, novembro 02, 2010


"Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar."