quarta-feira, março 09, 2011

Mergulho II

E tudo é proibido. Então, falamos.
Carlos Drummond de Andrade, "Certas palavras”

Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar.
As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros: "Ou você aprende ou morre".
Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.

Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.

Na terceira noite, o navio afundou.

terça-feira, março 01, 2011

Mergulho I

O primeiro aviso foi um barulhinho, de manhã bem cedo, quando ele se curvava para cuspir água e pasta de dentes na pia. Pensou que fosse o jato de água da torneira aberta e não ligou muito: sempre esquecia portas, janelas e torneiras abertas pelas casas e banheiros por onde andava.

Então fechou a torneira para ouvir, como todos os dias, o silêncio meio azulado das manhãs, com os periquitos cantando na varanda e os rumores diluídos dos automóveis, poucos ainda. Mas o barulhinho continuava. Fonte escorrendo: água clara de cântaros, bilhas, grutas — e ele achou bonito e lembrou (um pouco só, porque não havia tempo) remotos passeios, infâncias, encantos, namoradas.

Quando se curvou para amarrar o cordão do sapato é que percebeu que o barulhinho vinha do chão e, mais atentamente curvado, exatamente de dentro do próprio pé esquerdo. Tornou a não ligar muito; achou até bonito poder sacudir de quando em vez o pé para ouvir o barulhinho trazendo marés, memórias. Quando foi amarrar o cordão do sapato do pé direito, voltou a ouvir o mesmo barulhinho e sorriu para as obturações refletidas no espelho: dois pés, duas fontes, duas alegrias.

Ao abotoar as calças, sentiu o umbigo saltar exatamente como uma concha empurrada por uma onda mais forte e, logo após, o mesmo barulhinho, agora mais nítido, mais alto. Sentou na privada e acendeu um cigarro, pensando na feijoada do dia anterior. Antes de dar a primeira tragada, passou a mão pelo pescoço, prevenindo a áspera barba a ser feita, e
o pomo-de-adão deu um salto, umbigo, concha, como se engolisse ar em seco, e não engolia nada, apenas esperava, o cigarro parado no ar.
Ergueu-se para olhar a própria cara no espelho, as calças caídas sobre os sapatos desamarrados, e abriu a boca libertando uma espécie de arroto.

Foi então que a água começou a jorrar boca afora. Primeiro em gotas, depois em fluxos mais fortes, ondas, marés, até que um quase maremoto o arrastou para fora do banheiro. Espantado, tentou segurar-se no corrimão da escada, chegou a estender os dedos, mas não havia dedos, só água se derramando degraus abaixo, atravessando o corredor, o escritório, a
pequena sala de samambaias desmaiadas. Antes de atingir o patamar de entrada ele ainda pensou que seria bom, agora, não ser mais regato, nem fonte, nem lago, mas rio farto, caminhando em direção à rua, talvez ao mar.

Mas quando as ondas mais fortes rebentaram a porta de entrada para inundar o jardim, ele se contraiu, se distendeu e cessou, inteiro e vazio.
Não passava de uma gota na imensa massa de água, que descia das outras casas inundando as ruas.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Histórias que eu ouvi por aí

Tive a ideia de começar a escrever as histórias que as pessoas me contam por aí, a maioria com um desfecho triste ou trágico, ou nem tanto assim. Espero que dêem ótimos contos. Aí vai a primeira ...


PB – João Pessoa
ARL - 6633

Desci do carro mais rápido que pude; juro que pouco me faltou para beijar aquele chão. Mas isso não importava mais; só queria abraçar meu marido e chorar.
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                Era 05 de abril, enfim uma quarta-feira, só havia mais um dia de trabalho, e enfim minha merecida folga. Trabalho em casa de família, situada num bairro de classe média, da capital. Uma família até adorável, não recebia tão bem, mas dava para as despesas. Já trabalhei bem mais, ganhando bem menos. E ouvindo coisa como: “Sandraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, a galinha ficou mal passada.” Faltou pouco para dizer a ela quem era a galinha mal passada. “Sandraaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, você está atrasada.” “Desculpe, o ônibus quebrou.” “Porque não pegou um que não quebrasse?” Eu sou vidente por acaso?
                As pessoas esquecem, que pobre também é gente. Em pleno século XXI, certos preconceitos ainda não foram esquecidos e duvido muito que serão.  Devem achar que eu pedi pra ser escrava do fogão, essa foi à única opção viável, ou era isso ou então morrer de fome.
                Cuidei de tudo que era necessário na casa, tentei deixar só o básico para amanhã, sempre faço isso próximo a folga. Acabei me atrasando, já eram 6 horas da noite. O último ônibus já estava saindo, corri para estação, enquanto rezava para ele ter se atrasado. Mas pelo visto a única atrasada aqui era eu. Acabei tendo que pegar um alternativo, um pouco mais caro que o ônibus, e nem por isso mais confortável, havia quatro pessoas no banco traseiro, eu, uma senhora com seu bebê e um jovem de aproximadamente 20 anos. O jovem descera numa cidade próxima, a capital, trocou poucas palavras com os passageiros, só disse que estudava na capital. A senhora estava entretida demais com o filho. Conforme as cidades chegavam as pessoas desciam. Ao ponto de ficar apenas eu e o motorista. Já era aproximadamente umas 7 horas e ainda faltava mas uns 30 minutos de estrada. Ele começou a me olhar pelo espelho do retrovisor. A velocidade do carro começou a diminuir ao poucos, até que ele parou. Eu forçava a me acreditar que não era nada do que eu pensava, um pneu havia estourado, ou algo assim. “O que aconteceu?” – perguntei. “Nada. Ainda irá acontecer.” – respondeu com um sorriso malicioso e perverso.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Camino

Deixando de lado, contos, livros, frases, autores e etc. Venho aqui trazer a sugestão de um filme.

Um Caminho De Luz


DRAMA
Sinopse – Inspirado em fatos reais, o filme é uma aventura emocional em torno de Camino, uma extraordinária menina de onze anos que enfrenta ao mesmo tempo dois acontecimentos que são completamente novos para ela: se apaixonar e morrer. A Menina doce que ama incondicionalmente sua mãe, seu pai e sua irmã mais velha, tem um tumor raro e extremamente agressivo, que começa a destruir sua vida e vai lhe privando, passo a passo e com dolorosa precisão, cada uma de suas ilusões. Mas Camino é uma luz brilhante capaz de atravessar cada uma das portas que vão se fechando diante dela, que pretendem inutilmente deixar na escuridão o seu desejo de viver, amar e sentir-se definitivamente feliz.

Um filme no qual há temáticas, que com certeza geram muita discussão: amor, religião e fé. Amor... Seria ele tão importante assim? Tudo deve ser sacrificado em pró da religião. Fé... Que seja feita a vontade de Deus, não a nossa.

Assistam e se emocionem, com a história dessa linda garota.

Por: Linderson C.