terça-feira, novembro 09, 2010

Divã

Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o que?
Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranqüila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de uma dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento. Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responde às minhas próprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.
Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pé pra casa, avariada.
Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, Lopes, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem seqüelas, sem registro de ocorrência?
Eu nunca amei aquele cara, Lopes. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travessos. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor.

terça-feira, novembro 02, 2010


"Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar."

sábado, outubro 30, 2010

Presságio de uma morte


Mais um dia normal na escola, ou talvez não. Os alunos começavam a chegar e ao verem uma multidão ao redor de algo, ficavam curiosos e iam até lá ver do que se tratava. Ao chegarem o seu choque era evidente, eles não falavam nada. Estavam assustados, atordoados e com o estomago embrulhado com aquela cena. Ninguém sabia o que fazer diante daquilo. Até que eu, enfim, cedi a minha curiosidade e fui ver do que se tratava. Ao chegar ao local, fiquei atordoada como todos que estavam lá. Eu vi o desespero nos olhos daquele menino caído no chão sobre uma garota. Ela estava ensanguentada, ele com a arma do crime em mãos, uma faca. Mas ele não demonstrava sentir ódio daquela menina que havia assassinado, ele chorava arrependido do que tinha feito.

Passado esse momento de choque, todos os alunos começaram a realmente entender o que tinha acontecido ali. E sentiram medo daquele menino, todos recuavam apressadamente, menos eu. Eu sabia o que havia acontecido, aquele menino havia matado uma garota, mas eu não tinha medo dele. Eu sentia compaixão. À medida que os outros alunos se distanciavam do local, eu me sentia mais presa aquele garoto. Então me aproximei dele, sem medo, sem raiva. E ele me abraçou, nenhuma palavra foi dita, ele me apertava junto ao seu corpo. E pela primeira vez aquele menino chorou. Eu sabia que nada mudaria aquela situação, então tentei confortá-lo ao máximo. E no silêncio daquele momento notei olhares curiosos, acusadores e até mesmo assustados com a possibilidade daquele menino tentar algo contra mim.

Algum tempo depois, eu estava de frente à menina morta e seu assassino. A policia chegou e o chamou para que os acompanhasse, eu vi o medo nos olhos daquele menino. Então, resolvi acompanhá-lo.

Ao chegarmos à delegacia, a tensão daquele menino só aumentava. Os policiais o olhavam com desprezo e consequentemente me encaravam por eu estar ali, ao lado de um assassino. Então, pela primeira vez ele falou comigo.

- Por que você veio? Eu matei uma menina e você ainda vem comigo pra delegacia?

- Eu não sei porque vim, simplesmente achei que era o certo a fazer. – respondi da forma mais sincera.

- Não, não era o certo. Você viu, eu sou um assassino. Embora não lembre, eu matei aquela menina. - ele parecia agitado.

- Como assim não se lembra? Você a matou, certo? – eu estava confusa.

- Acho que sim, não sei. Quando eu vi já estava com uma faca ensanguentada nas mãos .

- Eu não consigo entender. Como você não sabe que a matou? – eu o questionei.

- Eu já disse que não sei, tem algo errado comigo. E você não deveria estar aqui. É melhor você ir embora, enquanto é tempo.

- Eu não vou embora. Eu quero te ajudar. Eu senti isso desde que o vi sobre o corpo daquela garota.

- Vocês nunca aprendem não é? Aquela garota também quis me ajudar. E veja o que lhe aconteceu. – ele havia mudado repentinamente, agora estava diabólico.

- O que você disse? Você se lembra do que fez? – eu estava apavorada.

- Como eu iria esquecer? Uma menina tão linda e tão boba. Bem parecida com você.

- Mas... você me disse que não lembrava de nada. Por que agora me diz isso?

- Ora, ora, ora. Você que escolheu por isso. Você não quer me ajudar?

- Não, agora eu quero ir embora. Você está louco.

Eu me levantei para ir embora, mas ele foi mais rápido e segurou-me, tapando a minha boca para que ninguém ouvisse meus gritos. Mas ninguém apareceria, eu sabia disso. Eu estava em pânico. E ele sorria de prazer.

- Você deveria ser mais esperta. Pena que não terá oportunidade para mudar. Você sabe o que farei agora? - ele sentia prazer com o meu sofrimento.

Eu estava assustada. Ele me apertava com mais força. Dizia-me algumas coisas sem sentido. Palavras que eu não entendia, como se fossem outra língua. Ele estava eufórico, louco, diabólico.

- Você irá sentir muita dor no começo. Mas logo passará e depois você não sentirá mais nada. Você irá fazer companhia a todas as outras garotas que assim como você, tentaram me ajudar. Ninguém pode me ajudar, nem me deter. Eu sempre irei vagar pela Terra, derramando o sangue das mais belas criaturas e arrancando seus corações bondosos. E nada me alegra mais do que isso. Dorme bem, bobinha.

Ele apertou a faca contra o meu peito e vagarosamente cravou-a em mim. Eu urrei de dor, mas de alguma forma ninguém me ouviria. Ele me esfaqueou de várias formas, até que não senti mais nada. E tudo se tornou escuridão.

Eu sentia alguém me puxar, mas eu não conseguia ver quem era. Estava com medo que fosse aquele garoto. Mas essa mão me puxava com mais força. Sacudia-me. E quando eu consegui abrir os olhos, percebi que tudo aquilo havia sido um sonho. Minha mãe estava tentando me acordar, eu estava atrasada para a escola. Troquei de roupa e fui direto para o colégio. Ao chegar vi uma aglomeração de alunos ao redor de algo, fiquei curiosa e um pouco receosa. Resolvi ver do que se tratava, e ao chegar ao local. Meu pavor era evidente. No chão, estava um menino com uma faca em mãos e um corpo ensanguentado ao seu lado. O menino me encarava. Eu gritei de pavor e sai imediatamente daquele lugar.

Texto: Mairana M.


quarta-feira, outubro 27, 2010

Nada ficou


E de tudo, só restou o vazio. Ela não sentia nada por ele. Nenhum sentimento bom, como costumava ser, antes daquele dia. Nenhum sentimento ruim. Ela queria sentir raiva, rancor, desprezo. Mas simplesmente só conseguia ignorá-lo. Ele tornou-se o vazio, o nada. A sua presença não seria notada. Ela não sentiria saudades dos velhos tempos. Muito menos, o desejo de saber como tudo seria. Ela perdeu a vontade de vê-lo, abraçá-lo ou qualquer outra vontade relacionada a ele. Ela esqueceu. Assim como sempre fez. Ela sempre esquece os que nada significaram. Ou que até significaram algo, mas que acabaram por matar qualquer laço, qualquer sentimento. Todos os outros tornaram-se o nada absoluto para ela. E ela como sempre faz depois de um tombo, ergueu-se, arrumou novamente a sua roupa, ajeitou seus cabelos, tornou-se apresentável novamente e continuou a sua caminhada, como se nada tivesse acontecido. Ela supera, com a mesma facilidade e rapidez de sempre. E sempre volta mais bela e mais forte que antes.


Texto: Mairana M.

Diário de um apaixonado

Sozinho, o apaixonado tem a caligrafia da tristreza.
Aproveita a neblina para deixar recados nas vidraças.
Redige o alfabeto emendado, não suporta as letras
separadas. Pára de repente o olhar e não avança.
Observa os cachorros como anjos atrapalhados
acomodando suas asas. Comove-se com o modo que
lambem as patas, os becos das patas. Capaz de olhar
longamente os cachorros dormindo, para não aprender
nada a não ser os cachorros dormindo.

O APAIXONADO É UM
COMOVIDO À TOA.


"DIÁRIO de um APAIXONADO. Sintomas de um bem incurável"